{"id":725,"date":"2017-02-05T21:35:49","date_gmt":"2017-02-05T23:35:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost\/paroquia\/?p=725"},"modified":"2017-03-10T12:20:00","modified_gmt":"2017-03-10T15:20:00","slug":"campanha-da-fraternidade-de-2017-uma-nova-concepcao-de-vida-fraterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paroquiavilaoperaria.org.br\/portal\/campanha-da-fraternidade-de-2017-uma-nova-concepcao-de-vida-fraterna\/","title":{"rendered":"Campanha da Fraternidade de 2017: uma nova concep\u00e7\u00e3o de \u201cvida fraterna\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"post-header\">\n<p class=\"autor\">Por Nicolau Jo\u00e3o Bakker, svd<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"2\" class=\"container-content\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>As ci\u00eancias da vida, em certo sentido, apontam para uma nova concep\u00e7\u00e3o de vida fraterna. Somos verdadeiramente irm\u00e3os e irm\u00e3s n\u00e3o apenas dos nossos semelhantes, os seres humanos, mas tamb\u00e9m, como j\u00e1 intu\u00eda s\u00e3o Francisco de Assis, de todos os demais seres vivos do planeta. A Campanha da Fraternidade de 2017 nos convida a \u201ceducar o nosso olhar\u201d, como j\u00e1 nos aconselhava Teilhard de Chardin.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surpreendeu-me o tema da Campanha da Fraternidade de 2017: \u201cFraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida\u201d. O que a fraternidade tem a ver com os biomas brasileiros? Tradicionalmente, nossos biomas s\u00e3o seis: a Amaz\u00f4nia, o cerrado, a caatinga, a Mata Atl\u00e2ntica, o Pantanal e os pampas do sul. Ultimamente se acrescenta a eles a zona costeira e marinha. N\u00e3o \u00e9 um pouco artificial ligar esses biomas ao conceito de fraternidade? De fato, mais do que nosso estado ou regi\u00e3o de origem, \u00e9 o bioma que define o viver, conviver e sobreviver do ser humano. Cada bioma \u00e9 o resultado de for\u00e7as c\u00f3smicas que mudam apenas a longu\u00edssimo prazo e ultrapassam em muito a capacidade humana de, de alguma forma, domin\u00e1-los. Muito antes de o ser humano destruir o bioma, o bioma ir\u00e1 destruir o ser humano. Em muitos sentidos, o bioma \u201cgera\u201d o ser humano, dando-lhe sua caracter\u00edstica pr\u00f3pria, n\u00e3o apenas nas fei\u00e7\u00f5es do corpo, mas tamb\u00e9m nas da alma. O objetivo deste artigo \u00e9 demonstrar que, das ci\u00eancias da vida, surge uma nova concep\u00e7\u00e3o de vida fraterna. Faremos isto, em primeiro lugar, observando \u201ca vida como ela \u00e9\u201d. Em seguida veremos que tamb\u00e9m o bioma, como a pr\u00f3pria vida, \u00e9 sempre uma teia partilhada. E, finalmente, tiraremos algumas conclus\u00f5es pastorais em defesa da vida.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><strong>\u201cA vida como ela \u00e9\u201d<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fraternidade, antes de ser um fen\u00f4meno social, \u00e9 um fen\u00f4meno biol\u00f3gico. Trata-se de um exagero colocar as coisas dessa forma? Parece, mas n\u00e3o \u00e9. A vida, apesar das ocasionais apar\u00eancias contr\u00e1rias, \u00e9 toda ela fraternal. Podemos perceber isso melhor quando colocamos debaixo da lupa uma c\u00e9lula viva, de qualquer ser vivente, para observar seu metabolismo (<em>BAKKER,<\/em>, 278\/2011). Antes de mais nada, devemos ent\u00e3o distinguir entre c\u00e9lulas sem n\u00facleo central e c\u00e9lulas com n\u00facleo central. Os especialistas falam em c\u00e9lulas procariontes e eucariontes. Durante os primeiros 2 bilh\u00f5es de anos, a vida no planeta Terra, iniciada h\u00e1 cerca de 3,7 bilh\u00f5es de anos, foi comandada basicamente pelas bact\u00e9rias, seres vivos unicelulares sem n\u00facleo central. Seu DNA \u00e9 mil vezes mais simples que o nosso e n\u00e3o passa de um \u00fanico cord\u00e3o de uns quatro mil genes que flutua livremente no l\u00edquido, o citoplasma. Mas n\u00e3o subestime as bact\u00e9rias: sem sexo algum, elas podem multiplicar-se a cada vinte minutos e partilhar entre si at\u00e9 15% do seu c\u00f3digo gen\u00e9tico diariamente! Esse <em>pool<\/em> gen\u00e9tico deu-lhes a capacidade de adaptar-se \u00e0s mais diversas e duras condi\u00e7\u00f5es num planeta em permanente transforma\u00e7\u00e3o. As bact\u00e9rias acabaram desenvolvendo os principais mecanismos de sustenta\u00e7\u00e3o da vida: a fermenta\u00e7\u00e3o, a fotoss\u00edntese, a fixa\u00e7\u00e3o do nitrog\u00eanio, a respira\u00e7\u00e3o aer\u00f3bia, a pigmenta\u00e7\u00e3o, a locomo\u00e7\u00e3o etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos agora p\u00f4r debaixo da lupa a nossa c\u00e9lula, a eucarionte, isto \u00e9, a que possui um n\u00facleo central e apresenta uma complexidade muito maior do que a das bact\u00e9rias. Devemos \u00e0 grande microbi\u00f3loga Lynn Margulis a comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de que n\u00e3o s\u00e3o apenas as muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas e as transfer\u00eancias gen\u00e9ticas diretas \u2014 como a das bact\u00e9rias \u2014 que fazem evoluir a vida, mas existe tamb\u00e9m a poderosa for\u00e7a da simbiog\u00eanese (MARGULIS, 2002). \u00c9 a\u00ed que percebemos com maior clareza que a vida, em qualquer n\u00edvel, depende inteiramente da tal fraternidade biol\u00f3gica. Todas as c\u00e9lulas eucariontes s\u00e3o fruto de uma integra\u00e7\u00e3o, uma colabora\u00e7\u00e3o \u00edntima e permanente \u2014 uma simbiose \u2014 entre for\u00e7as vivas antes separadas. Tomemos como exemplo a simples alga do mar, a antecessora das plantas. Colocada debaixo da lupa, os especialistas percebem que seu n\u00facleo gen\u00e9tico \u00e9 uma fus\u00e3o de dois tipos diferentes de bact\u00e9rias: a arqueofermentadora, capaz de decompor cadeias de carbono, ou a\u00e7\u00facares, transformando-os em energia, e uma j\u00e1 capaz de locomo\u00e7\u00e3o, a nadadora. Mais adiante, uma terceira bact\u00e9ria veio enriquecer o conjunto da c\u00e9lula: a respiradora, especializada em respirar oxig\u00eanio. Os novos seres que, h\u00e1 aproximadamente 2 bilh\u00f5es de anos, resultaram dessa m\u00faltipla fus\u00e3o, ainda unicelulares, vieram receber depois a inestim\u00e1vel colabora\u00e7\u00e3o de uma quarta bact\u00e9ria, a fotossintetizadora (a cianobact\u00e9ria, verde-azulada). Contudo, os resqu\u00edcios desta encontramos apenas no reino das plantas, e n\u00e3o no reino dos fungos ou no reino dos animais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ajustemos, por\u00e9m, ainda mais a lente da nossa lupa. Dentro do n\u00facleo central de cada c\u00e9lula eucarionte podemos observar claramente um pequeno minin\u00facleo que, em conjunto com o DNA principal do n\u00facleo central, d\u00e1 origem aos aproximadamente 500 milcentros de produ\u00e7\u00e3o, os ribossomos, espalhados pelo fluido celular, cada um produzindo, al\u00e9m das prote\u00ednas e enzimas necess\u00e1rias, tamb\u00e9m as quatro organelas principais que sustentam a vida da c\u00e9lula: 1) as usinas solares, ou cloroplastos, que \u2014 apenas nas c\u00e9lulas vegetais \u2014 absorvem do ar o di\u00f3xido de carbono e a energia do sol, e da terra a \u00e1gua e os minerais, para, com a ajuda de enzimas, transformar tudo em a\u00e7\u00facares alimentares, devolvendo ao ar o oxig\u00eanio (= fotoss\u00edntese); 2) as casas de for\u00e7a, ou mitoc\u00f4ndrias, que, tamb\u00e9m com a ajuda de enzimas, realizam a respira\u00e7\u00e3o celular, usando a energia proveniente do oxig\u00eanio para decompor as indispens\u00e1veis mol\u00e9culas de a\u00e7\u00facar, transformando-as em transportadores de energia, as famosas mol\u00e9culas de trifosfato de adenosina (ATP), que fornecem energia a todas as c\u00e9lulas, e ao corpo, quando e onde for necess\u00e1rio; 3), as bolsas de armazenamento que servem de reserva e acondicionamento dos produtos celulares para serem usados quando necess\u00e1rio; 4) as usinas de reciclagem, onde se faz o re\u00faso de elementos n\u00e3o usados ou danificados. Que bela li\u00e7\u00e3o de vida: tudo colabora com tudo e nada \u00e9 desperdi\u00e7ado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram esses novos seres com n\u00facleo central e alta complexidade, chamados protistas, que evolu\u00edram, passando de unicelulares a multicelulares, at\u00e9 transformar-se, por caminhos diferentes, nas atuais plantas, fungos e animais. Ao reino destes, devemos humildemente reconhecer, pertencemos todos n\u00f3s. Se quisermos entender a vida como ela \u00e9, n\u00e3o existe melhor retrato do que este, do metabolismo celular. A c\u00e9lula, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 inteiramente aut\u00f4noma, pois atrav\u00e9s de sua membrana \u2014 resistente, mas perme\u00e1vel \u2014 ocorre um vai e vem cont\u00ednuo de material org\u00e2nico. \u00c9 sempre o \u201cmeio ambiente\u201d local que d\u00e1 sustento \u00e0 vida, permitindo, inclusive, (raros) momentos de supera\u00e7\u00e3o. Contudo, n\u00e3o existem comandos externos ou causas \u00fanicas. As c\u00e9lulas se renovam permanentemente, e por pr\u00f3pria conta. Sem causa externa, tiram c\u00f3pias de si mesmas, ou se autorreplicam, como dizem os estudiosos. Qualquer mudan\u00e7a \u00e9 sempre fruto da a\u00e7\u00e3o conjunta da c\u00e9lula toda, e a vida apenas permanece como fruto de rela\u00e7\u00f5es. Qualquer isolamento significa morte. Uma esp\u00e9cie de fraternidade faz parte, portanto, da ess\u00eancia da vida n\u00e3o consciente. Se na vida consciente frequentemente as coisas s\u00e3o diferentes, n\u00e3o \u00e9 a convers\u00e3o ecol\u00f3gica, ressaltada pelos \u00faltimos papas, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o? A mesma teia de inter-rela\u00e7\u00f5es colaborativas que caracteriza a c\u00e9lula caracteriza tamb\u00e9m o \u00f3rg\u00e3o no qual a c\u00e9lula est\u00e1 inserida. E assim tamb\u00e9m o organismo e as rela\u00e7\u00f5es entre \u00f3rg\u00e3os e organismo. N\u00e3o importa tratar-se de uma humilde planta, um animal feroz ou qualquer outro ser vivo. Apenas a vida consciente pode interferir no padr\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es vitais, no sentido de efetivamente contrari\u00e1-las.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"2\">\n<li><strong>Biomas: teias de vida partilhada<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mesma teia de rela\u00e7\u00f5es que caracteriza a vida da c\u00e9lula caracteriza tamb\u00e9m o bioma. O car\u00e1ter bioqu\u00edmico da vida n\u00e3o permite exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. Atrav\u00e9s de suas divisas \u2014 sua membrana perme\u00e1vel \u2014, ocorre um permanente vai e vem de energias c\u00f3smicas que lhe d\u00e3o sustento. As nuvens carregadas de vapor do mar trazem \u00e1gua. Sobras s\u00e3o passadas adiante. Os ventos expulsam o calor excessivo do ar, restaurando a temperatura ideal. A energia solar est\u00e1 abundantemente dispon\u00edvel para a fotoss\u00edntese de todas as plantas verdes. Da mesma forma, o oxig\u00eanio, fornecendo energia \u00e0s mitoc\u00f4ndrias de todos os seres viventes. Como j\u00e1 vimos, \u00e9 o meio ambiente adequado que permite \u00e0 vida prosperar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, cada bioma tem tamb\u00e9m sua personalidade pr\u00f3pria, sua identidade. E esta, tamb\u00e9m, se renova e se perpetua por conta pr\u00f3pria, gra\u00e7as \u00e0s in\u00fameras rela\u00e7\u00f5es colaborativas que s\u00e3o espec\u00edficas a ela. Um exemplo pr\u00e1tico talvez ajude a esclarecer. Recentemente, numa viagem ao sul do Pantanal com alguns familiares, passamos por uma estreita estrada de terra rumo \u00e0 Pousada &amp; Camping Santa Clara. Num determinado percurso de n\u00e3o mais de trinta quil\u00f4metros, passamos por quase quarenta pontes de madeira, todas de dif\u00edcil manuten\u00e7\u00e3o. Ao lado da estrada, uma imensid\u00e3o de \u00e1gua de sete metros de profundidade, quase cobrindo a mata verde, buscava uma sa\u00edda apressada por baixo das pontes. Perguntando ao r\u00fastico, mas bem informado guia tur\u00edstico da pousada sobre o porqu\u00ea de tantas pontes de dif\u00edcil e cara manuten\u00e7\u00e3o, obtive uma resposta muito esclarecedora. \u201cAqui no Pantanal\u201d, disse-me com simplicidade, \u201cdependemos muito da \u00e1gua. Nas \u00e1guas altas nem acesso \u00e0 pousada n\u00e3o tem. Repare naquela \u00e1rvore. A parte mais escura do casco mostra que a \u00e1gua, ainda h\u00e1 pouco, estava acima da estrada. As muitas pontes est\u00e3o a\u00ed para a \u00e1gua escoar o mais depressa poss\u00edvel. Daqui a dois meses, todos os pastos por aqui estar\u00e3o secos. Teremos agora as \u00faltimas chuvas de ver\u00e3o. Elas s\u00e3o muito importantes para n\u00f3s. O sedimento das \u00e1guas deixa uma fina camada de lodo sobre as ra\u00edzes da grama, n\u00e3o permitindo que a nova grama se desenvolva bem para o gado comer. A grama tem que crescer antes do tempo da seca. Sem essas chuvas a grama n\u00e3o cresce, o gado pode morrer e eu perco o meu emprego.\u201d Tiro na mosca. Da sabedoria humilde de um experiente pantaneiro recebi uma grande li\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica: cada bioma \u00e9 uma aut\u00eantica teia de vida partilhada. Todos dependem de tudo e de todos. Assim como na c\u00e9lula, assim no bioma. Uma grande teia partilhada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volto a perguntar: trata-se de um exagero falar em fraternidade biol\u00f3gica? Entendo que n\u00e3o, porque a mais perfeita fraternidade crist\u00e3 nada mais \u00e9 do que p\u00f4r em pr\u00e1tica, conscientemente, o que a pr\u00f3pria vida \u00e9 de forma inconsciente. A vida \u00e9 sempre uma teia de rela\u00e7\u00f5es colaborativas. Como tudo est\u00e1 inter-relacionado, qualquer meio ambiente, grande ou pequeno, estar\u00e1 sujeito, historicamente, a momentos de crise ou at\u00e9, esporadicamente, a grandes cataclismos, mas sempre cada sistema \u2014 e os diferentes sistemas entre si \u2014, por suas for\u00e7as vitais internas, retorna, adaptando-se ao antigo ou a um novo equil\u00edbrio. N\u00e3o \u00e9 o tema de reflex\u00e3o deste artigo, mas \u00e9 preciso fazer men\u00e7\u00e3o a algo misterioso que as ci\u00eancias da vida t\u00eam muita dificuldade de captar. Isso \u00e9 natural, pois a ci\u00eancia, por si s\u00f3, n\u00e3o pode capt\u00e1-lo. Apenas pela f\u00e9 \u00e9 poss\u00edvel captar o sentido mais profundo daquilo que chamamos de vida. O renomado fil\u00f3sofo alem\u00e3o Hans Jonas usa uma express\u00e3o muito adequada. Em toda a cria\u00e7\u00e3o, ele diz, existe um horizonte de transcend\u00eancia. Por mais de 1 bilh\u00e3o de anos, a Terra desconhecia a vida; havia apenas o intermin\u00e1vel interc\u00e2mbio entre os elementos f\u00edsico-qu\u00edmicos, em resposta ao meio ambiente c\u00f3smico. Contudo, existe uma esp\u00e9cie de fraternidade inicial entre os elementos da natureza. Suas diferentes polaridades el\u00e9tricas os levam a transcender a individualidade e formar conjuntos marcados pela estabilidade. Em especial o carbono \u2014 a m\u00e3e de todos os produtos org\u00e2nicos \u2014 se presta a incont\u00e1veis combina\u00e7\u00f5es. Logo que o meio ambiente da Terra o permitiu, a fraternidade inicial evoluiu para a fraternidade bioqu\u00edmica ou biol\u00f3gica que acima retratamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dissemos acima que \u201co car\u00e1ter bioqu\u00edmico da vida n\u00e3o permite exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra\u201d. O fato \u00e9 que a pr\u00f3pria tend\u00eancia \u00e0 transcend\u00eancia faz parte da regra! Ap\u00f3s 620 milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o, o c\u00e9rebro humano possibilitou ao ser humano criar consci\u00eancia de si mesmo e captar a no\u00e7\u00e3o de sentido da Vida. A\u00ed surge a fraternidade consciente, a marca registrada de todas as religi\u00f5es, entre as quais a crist\u00e3. Ningu\u00e9m sabe qual \u00e9 o ponto final do processo. O inexistente n\u00e3o se sujeita \u00e0 comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Apenas a f\u00e9 pode intuir a continuidade do horizonte. N\u00f3s, crist\u00e3os, acreditamos num Reino a construir, a Nova Jerusal\u00e9m, que, mais do que uma conquista, ser\u00e1 um dom, pois \u201cdescer\u00e1 do c\u00e9u\u201d (Ap 21,10). Ainda h\u00e1 um longo caminho \u00e0 nossa frente. Quem sabe uma globaliza\u00e7\u00e3o mais positiva possa um dia levar a humanidade a ter rela\u00e7\u00f5es colaborativas muito mais amplas e profundas. As fraternidades conscientes construir\u00e3o ent\u00e3o a \u201cvida em plenitude\u201d sonhada por Jesus (Jo 10,10). Felicidade humana nada mais \u00e9 do que isso.<\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\" start=\"3\">\n<li><strong>Por uma pastoral em defesa da vida<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\">Querer atuar em defesa da vida sem ter uma clareza maior do que a vida \u00e9 facilmente leva a equ\u00edvocos. Ter somente teorias, \u00e9 verdade, de nada adianta, pois a pastoral \u00e9 feita de a\u00e7\u00f5es concretas, mas construir muros sem adequar o prumo \u00e9 ilus\u00f3rio. \u00c9 desperd\u00edcio do nosso precioso tempo. J\u00e1 dizia santo Agostinho (\u2020430) que n\u00e3o adiantam os grandes passos quando feitos nos caminhos errados. Por outro lado, lembrando meus tempos de professor de Teologia Pastoral, aprendi que receitas prontas n\u00e3o s\u00e3o nada educativas. Como vimos, a vida apenas prospera com colabora\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas. Vamos tentar chegar mais perto do dia a dia sem cair na armadilha de aprisionar a criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.1. Romper a coura\u00e7a institucional<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9, no meu entender, a primeira pre-condi\u00e7\u00e3o para um bom trabalho em defesa da vida. Se o papa insiste numa Igreja em sa\u00ed\u00adda, \u00e9 porque estamos demasiadamente presos aos nossos incont\u00e1veis e incontorn\u00e1veis compromissos paroquiais (ou institucionais). Estou em par\u00f3quia e sinto o desafio diariamente. Existe uma ci\u00eancia, a da cogni\u00e7\u00e3o ou do conhecimento, que afirma: nosso modo de atuar define o nosso modo de pensar! \u00c9 humanamente quase imposs\u00edvel romper com as tradi\u00e7\u00f5es que nos prendem, com as conven\u00e7\u00f5es sociais que nos ditam as regras e com o contexto sociocultural que nos impede de ver o que est\u00e1 para al\u00e9m do nosso horizonte. Via de regra, o que se sedimentou no inconsciente fala mais alto do que o consciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, n\u00e3o esque\u00e7amos \u2014 especialmente n\u00f3s, agentes pastorais \u2014 que a Igreja, durante s\u00e9culos, se manteve avessa ao mundo. A Igreja enquanto institui\u00e7\u00e3o se voltou com exclusividade para as preocupa\u00e7\u00f5es intraeclesiais. Depois do Conc\u00edlio Vaticano II, marcadamente na Am\u00e9rica Latina, houve uma curta rea\u00e7\u00e3o. As CEBs e as pastorais sociais deram um novo rosto \u00e0 Igreja, mas, globalmente, as for\u00e7as renovadoras n\u00e3o prevaleceram. Sem uma sacudida forte no minist\u00e9rio ordenado, especialmente por parte do Vaticano, o clericalismo ir\u00e1 prevalecer e os padres \u2014 em geral os animadores gerais do processo \u2014 se ver\u00e3o, na pr\u00e1tica, presos aos limites impostos pela institui\u00e7\u00e3o. No momento do agir, a CF seja no social, seja no ecol\u00f3gico, ir\u00e1 propor, sugerir etc., mas ficar\u00e1 apenas no papel. Romper coura\u00e7as institucionais \u00e9 muito mais dif\u00edcil do que imaginamos. Requer uma esp\u00e9cie de convers\u00e3o. Quem quer partir em defesa da vida deve largar (em parte!) a agenda paroquial, mobilizar tempo e ir para onde a vida corre perigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.2. Saber articular-se<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 outra precondi\u00e7\u00e3o. Hoje, em quase todos os cantos do Brasil, h\u00e1 gente se preocupando com o meio ambiente. O grande bioma, pela sua enorme extens\u00e3o, costuma ficar fora do alcance dos bin\u00f3culos, mas lembrem: a vida \u00e9 feita de rela\u00e7\u00f5es colaborativas. S\u00e3o t\u00e3o importantes os n\u00edveis locais quanto os maiores. O bioma costuma ser dividido em grandes bacias hidrogr\u00e1ficas. Estas s\u00e3o compostas por muitas sub-bacias menores. E cada bacia menor se constitui de in\u00fameras microbacias. A vida surgiu da \u00e1gua e dela depende. Voc\u00ea que \u00e9 padre, irm\u00e3 ou leigo, n\u00e3o vale a pena dar uma olhada ao redor, ver quem j\u00e1 est\u00e1 atuando, ou querendo atuar, e articular-se com essas pessoas em defesa da vida? Em certa fase de minha vida, tive a oportunidade de atuar junto a uma ONG de meio ambiente de um pequeno munic\u00edpio no interior do estado de S\u00e3o Paulo, na grande bacia hidrogr\u00e1fica do rio Piracicaba (<em>Vida BAKKER<\/em>, 281\/2011). Fiz uma pequena cartilha popular sobre as dezesseis microbacias do munic\u00edpio (Holambra). Cito uma parte do texto: \u201cMicrobacia \u00e9 uma pequena \u00e1rea geogr\u00e1fica; toda \u00e1gua nela existente, ou toda chuva que nela cair, acaba fluindo para o mesmo c\u00f3rrego que lhe d\u00e1 o nome\u201d. E em destaque: \u201cTodo ser humano vive numa microbacia. N\u00e3o permita que se jogue qualquer sujeira nela. A microbacia \u00e9 a sua casa!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea, leitor, j\u00e1 sabe o nome da sua microbacia? Procure saber, e m\u00e3os \u00e0 obra! O importante \u00e9 articular-se. Mas \u201cah, eles s\u00e3o de outra religi\u00e3o\u201d. N\u00e3o importa. \u201cS\u00e3o de outro partido.\u201d Tamb\u00e9m n\u00e3o importa. \u201cN\u00e3o s\u00e3o da nossa par\u00f3quia.\u201d Importa menos ainda. A \u00fanica coisa que importa \u00e9 defender a vida. Com essa mania da nossa Igreja (ou ser\u00e1 dos nossos bispos?) de apenas incentivar as pastorais internas, a vida l\u00e1 fora est\u00e1 numa agonia danada. Para muitos, j\u00e1 \u00e9 tarde demais para reverter a situa\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, essa imperiosa necessidade de melhorarmos as nossas articula\u00e7\u00f5es n\u00e3o tem a ver apenas com o meio ambiente. \u00c9 igualmente importante para todas as nossas pastorais sociais. Se em d\u00e9cadas passadas estas foram, quem sabe, at\u00e9 supervalorizadas, hoje elas \u2014 quando ainda existem \u2014 est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de dar d\u00f3. Frequentemente, n\u00e3o existe mais nada, nem na par\u00f3quia, nem na regi\u00e3o pastoral. N\u00e3o custa, por\u00e9m, dar in\u00edcio a algo novo. Ultimamente, o que tem dado certo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de pequenos f\u00f3runs. S\u00e3o mais male\u00e1veis, pois podem priorizar ora a quest\u00e3o social, ora a quest\u00e3o ecol\u00f3gica. Por aqui criamos, de forma suprapartid\u00e1ria e suprarreligiosa, o nosso f\u00f3rum de entidades. Estamos, neste momento, na prepara\u00e7\u00e3o de um ato ecum\u00eanico contra a viol\u00eancia e, tamb\u00e9m, na prepara\u00e7\u00e3o da nossa Sexta Caminhada Ecol\u00f3gica. Para esta ainda falta definir o foco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3.3. Focar os inimigos do bioma<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seria muito saud\u00e1vel que todos fiz\u00e9ssemos uma boa an\u00e1lise da surpreendente enc\u00edclica <em>Laudato Si\u2019<\/em>, do papa Francisco. N\u00e3o fala de biomas, mas est\u00e1 perfeitamente dentro daquilo que a vida \u00e9. Mais de trinta vezes aborda o tema \u201ctudo est\u00e1 interligado\u201d (<em>BAKKER<\/em>, 490\/2016). Contudo, como o atual sucessor de Pedro n\u00e3o \u00e9 de dar ponto sem n\u00f3, quase quarenta vezes cita como causa principal de uma eventual cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica (LS 4) o atual paradigma tecnocient\u00edfico, visto por todos os governos como o \u00fanico caminho de enfrentamento e supera\u00e7\u00e3o. Uma verdadeira ilus\u00e3o global. Todos os biomas s\u00e3o fruto de uma delicada inter-rela\u00e7\u00e3o entre o clima predominante na \u00e1rea e uma grande variedade de condi\u00e7\u00f5es locais, tais como: o tipo de solo, fauna e flora, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das \u00e1guas, a densidade populacional, as condi\u00e7\u00f5es de mercado e at\u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o cultural das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. O que faz o tal paradigma tecnocient\u00edfico? Desconsidera e atravessa todas as condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do bioma e imp\u00f5e um sistema ex\u00f3geno (extrabi\u00f4mico) e \u00fanico de produ\u00e7\u00e3o e consumo, sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias sociais e ecol\u00f3gicas. Rasga-se simplesmente toda a teia (tradicional) de vida partilhada. E, como vimos acima, rasgando a teia da vida, a morte \u00e9 certa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente, trata-se de uma realidade mais vis\u00edvel nas \u00e1reas rurais do que nas \u00e1reas urbanas. Voc\u00eas que atuam numa \u00e1rea rural, seja na catequese, na liturgia, no d\u00edzimo, na pastoral familiar, da juventude, ou em qualquer outra pastoral ou movimento, j\u00e1 pensaram como incluir essa quest\u00e3o da defesa da vida em sua agenda de trabalho? Vejam ao seu redor e reparem onde o paradigma tecnocient\u00edfico est\u00e1 fazendo seus maiores estragos. Pode ser uma reserva ind\u00edgena amea\u00e7ada que necessita urgentemente de apoio, uma comunidade quilombola prestes a ser invadida e fatiada pelo \u201cprogresso\u201d, a crescente leva dos sem-terra, uma grande \u00e1rea de ribeirinhos que v\u00ea minguar sua tradicional fonte de prote\u00ednas (peixe, produtos naturais), uma rica reserva natural clamando por defensores, ou ent\u00e3o, como ocorre na maioria dos casos, uma rica e produtiva agricultura org\u00e2nica e familiar que perde mercado porque todos se deixam seduzir pelos belos produtos apregoados na m\u00eddia. Ningu\u00e9m se mexe, ningu\u00e9m conscientiza, ningu\u00e9m se articula contra? Perdida em meio \u00e0s suas m\u00faltiplas e bem-intencionadas preocupa\u00e7\u00f5es intraeclesiais, a Igreja n\u00e3o pode correr o perigo de, pela omiss\u00e3o, ser como o \u201cfermento\u201d dos fariseus contra o qual Jesus admoestou os seus disc\u00edpulos (Mt 16,5-12)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estabelecer um nexo entre biomas e fraternidade crist\u00e3, at\u00e9 muito recentemente, seria impens\u00e1vel. Mesmo hoje \u00e9 preciso enfocar o tema de forma adequada para n\u00e3o tirar conclus\u00f5es apressadas e sem nexo. Talvez, mais do que uma quest\u00e3o de doutrina, seja uma quest\u00e3o de espiritualidade. No cristianismo, mais importante do que o conhecer \u00e9 o viver, o praticar. Perceber que a f\u00e9 crist\u00e3 tem algo a ver com o ar que respiramos, com a flora e a fauna, e com as paisagens, as \u00e1guas e o mar; dar-nos conta, enfim, de que tudo est\u00e1 interligado, que n\u00e3o somos donos, mas parte da natureza, e que \u201csomos todos terra\u201d, como afirma o papa Francisco (LS 2), tudo isso est\u00e1 mais para sentimento, empatia e emo\u00e7\u00e3o do que para frias argumenta\u00e7\u00f5es doutrinais. A B\u00edblia toda expressa essa rever\u00eancia. Jesus a manifesta quando fala dos l\u00edrios do campo, e Francisco de Assis faz o mesmo quando pede ao irm\u00e3o Ant\u00f4nio que, mais do que ensinar a doutrina teol\u00f3gica aos frades menores, se preocupe em ensinar o caminho da piedade. Sem uma m\u00edstica, o ser humano n\u00e3o muda suas atitudes (LS 216).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao escrever este artigo, ocorreu-me a ideia de fazer distin\u00e7\u00e3o entre fraternidade inicial, fraternidade biol\u00f3gica e fraternidade consciente. N\u00e3o tenho d\u00favida de que ocorreu um processo evolutivo nesse sentido. A consci\u00eancia humana, ali\u00e1s, continua em evolu\u00e7\u00e3o. Sem isso, seria incorreto falar em nova concep\u00e7\u00e3o de vida fraterna. N\u00e3o se trata de uma linguagem meramente metaf\u00f3rica. Por mais importante que seja n\u00e3o perder de vista a riqueza das doutrinas acumuladas no passado, as ci\u00eancias da vida parecem sugerir que o melhor caminho talvez seja o de atentar melhor para a vida como ela \u00e9, para assim captar, com maior seguran\u00e7a, o que possa vir a ser a vida em plenitude almejada por Jesus. Nesse sentido, tamb\u00e9m os biomas t\u00eam uma li\u00e7\u00e3o a dar. Que a Campanha da Fraternidade de 2017 nos ajude a n\u00e3o perder o foco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Vida Pastoral<\/em>, BAKKER, N.I. n.278<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Symbiotic planet: <\/em>a new vision of evolution. New York: Basic Books, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MARGULIS, L.; SAGAN, D. <em>Microcosmos. <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultrix, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pastoral em novas perspectivas (I) \u2014 introdu\u00e7\u00e3o ao tema. Vida Pastoral,S\u00e3o Paulo: Paulus, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______.<em> A pastoral em novas perspectivas (III) \u2014 espiritualidade ecol\u00f3gica e perspectivas pastorais<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulus, n. 281, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">______. O papa \u201cque veio de longe\u201d: da Laudato Si\u2019 ao Ano de Miseric\u00f3rdia. Converg\u00eancia, Bras\u00edlia: CRB, n.490, 2016.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Nicolau Jo\u00e3o Bakker, svd<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">*Mission\u00e1rio do Verbo Divino, formado em Filosofia, Teologia e Ci\u00eancias Sociais. Atuou sempre na pastoral pr\u00e1tica, rural e urbana. Foi educador popular no Centro de Direitos Humanos e Educa\u00e7\u00e3o Popular de Campo Limpo, S\u00e3o Paulo (CDHEP\/CL), e professor de Teologia Pastoral no Instituto de Teologia (Itesp\/SP). Nos \u00faltimos anos, publica regularmente na Vida Pastoral, REB, Converg\u00eancia e Grande Sinal. Para consulta aos artigos do autor, acessar: &lt;artigospadrenicolausvd.blogspot.com.br&gt;. E-mail: nijlbakker@hotmail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Nicolau Jo\u00e3o Bakker, svd As ci\u00eancias da vida, em certo sentido, apontam para uma nova concep\u00e7\u00e3o de vida fraterna. 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